Adotar não significa uma única coisa
Nas conversas sobre transformação digital, «adoção» pode significar experimentar uma ferramenta, utilizá-la em algumas tarefas ou incorporá-la num processo de trabalho. São situações diferentes, ainda que sejam resumidas pela mesma palavra. Uma taxa só se compreende em conjunto com a definição que a origina.
O facto de uma organização declarar que utiliza uma tecnologia não indica, por si só, quem a utiliza, com que frequência ou em quantas atividades. O valor descreve o alcance medido pelo inquérito; não permite concluir automaticamente que a utilização seja diária ou que tenha alterado a forma de trabalhar.
O estudo da Funcas sobre inteligência artificial nas empresas europeias baseia-se no inquérito EU-ICT-Firm do Eurostat. A medida regista a proporção de empresas que afirma utilizar alguma tecnologia de IA, mas não o número de trabalhadores ou de horas dedicados a essa utilização. Conta empresas utilizadoras, não a intensidade de utilização.
Por isso, é útil distinguir entre disponibilidade, experimentação, utilização habitual e integração nos processos. Um valor agregado pode ajudar a estimar até que ponto uma tecnologia se difundiu entre as organizações estudadas, sem responder às restantes perguntas. O seu significado concreto depende da resposta considerada como adoção.
Porque os indicadores não são intercambiáveis
Duas percentagens podem referir-se a realidades diferentes se abrangerem populações, setores ou períodos distintos. Também podem variar consoante as tecnologias incluídas e a formulação da pergunta. Para interpretar um valor, é necessário saber quem é contado e o que se considera utilização; o facto de ambos os indicadores serem percentagens não garante que sejam comparáveis.
A unidade de análise também é importante. Uma medida pode contar empresas, enquanto outra se refere a trabalhadores, investimento ou capital tecnológico. A percentagem de organizações que declara utilizar IA não equivale à proporção de trabalhadores que trabalha com ela: cada indicador responde a uma pergunta diferente.
Numa análise de 2020, a CaixaBank Research utilizou uma aproximação baseada no capital em novas tecnologias: combinou software e bases de dados, investigação e desenvolvimento, computadores e equipamentos de telecomunicações, relacionando esse capital com as horas trabalhadas. É uma medida de capital tecnológico por hora trabalhada, não uma taxa de empresas utilizadoras de IA.
Também não se deve confundir uma observação com uma projeção. Um inquérito descreve respostas recolhidas num determinado período; um modelo pode calcular cenários futuros com base em pressupostos específicos. Se mudarem o período, a população ou o método, uma diferença entre resultados não prova, por si só, que a utilização real tenha aumentado ou diminuído.
Observações, previsões e tendências estratégicas
Um inquérito, uma previsão e uma lista de tendências desempenham funções diferentes. O primeiro recolhe informação sobre uma população; a segunda estima cenários condicionados por um modelo; a terceira organiza temas que os seus autores consideram relevantes. Não são três medidas equivalentes de adoção.
O estudo da Funcas descreve a adoção empresarial de IA na União Europeia e analisa diferenças entre países e regiões com base no EU-ICT-Firm. Também estima trajetórias de difusão e apresenta cenários futuros. Esses cenários não são uma contagem de empresas que já adotaram a tecnologia: dependem da abordagem de modelação e dos respetivos pressupostos.
Uma lista de tendências pode servir de orientação estratégica, mas não demonstra que uma tecnologia esteja amplamente implementada. Por exemplo, a Revista Byte TI publicou em 2023 uma seleção de tendências empresariais que incluía automação, IA, cibersegurança e superapps. Essa seleção reflete uma interpretação de prioridades, não um inquérito sobre a penetração das tecnologias.
A pergunta útil é que afirmação pode ser sustentada por cada tipo de material: um inquérito pode estimar a proporção de uma população que declara utilizar uma tecnologia; um modelo pode explorar cenários; uma lista pode contextualizar temas de interesse. O facto de uma tecnologia ser estratégica não prova que a sua utilização esteja generalizada.
O que permite concluir uma taxa de adoção
Uma taxa claramente definida permite descrever a proporção de organizações que declara utilizar uma tecnologia na população e no período estudados. A análise da Funcas identifica diferenças de adoção entre países da União Europeia e situa a Espanha numa posição intermédia no contexto analisado. O resultado descreve diferenças de difusão, não uma situação uniforme para todas as empresas espanholas.
A medida descrita pela Funcas não fornece informação sobre a intensidade de utilização. Por isso, não permite deduzir quantos processos foram automatizados nem quantos trabalhadores utilizam IA. Também não equivale a uma avaliação da produtividade: a intensidade de utilização, expressa, por exemplo, em trabalhadores ou horas dedicadas, não é medida.
O capital tecnológico e a utilização declarada são também formas diferentes de observar a digitalização. A CaixaBank Research utilizou categorias de capital para aproximar a relevância económica de determinadas tecnologias; a Funcas, por sua vez, analisa a proporção de empresas que declara utilizar IA. A métrica escolhida determina que conclusão é válida.
O estudo da Funcas sobre IA na banca apresenta outra unidade de análise: utiliza um inquérito a 2.018 clientes bancários em Espanha e examina a sua perceção, conhecimento e recetividade a serviços bancários baseados em IA. As respostas descrevem os clientes e a sua relação com os serviços bancários; não medem a proporção de empresas que integra IA.
Utilizar os dados nas decisões empresariais
Para uma empresa, uma taxa setorial pode fornecer contexto, mas não descreve, por si só, o funcionamento de uma implementação específica. A decisão de alargar a utilização de uma ferramenta exige atenção ao processo a que se aplica, às pessoas que a utilizam e ao objetivo pretendido. O indicador geral não substitui a avaliação do caso de utilização.
O estudo da Funcas mostra um limite específico das estatísticas EU-ICT-Firm: permitem observar quantas empresas declaram utilizar IA, mas não a intensidade dessa utilização. Para uma PME que avalia uma ferramenta, essa proporção não responde se a solução se adequa às suas tarefas nem se a implementação alcança o objetivo definido pela organização.
Uma avaliação interna pode colocar perguntas mais específicas do que uma taxa nacional: que tarefa passou a incluir a ferramenta, quem a utiliza e que mudança se espera observar? Estas perguntas ajudam a descrever a implementação própria, mas as respostas não devem ser confundidas com o resultado de um inquérito que abrange uma população empresarial mais ampla.
A utilidade de cada indicador depende da pergunta. A proporção de empresas utilizadoras descreve a difusão declarada; uma medida de capital tecnológico reflete outra dimensão; um inquérito a clientes aborda a perceção e a recetividade. Antes de comparar valores, é preciso confirmar que descrevem o mesmo fenómeno.
Uma leitura prudente dos dados
Antes de repetir uma taxa de adoção, identifique a população, a tecnologia, o período e a unidade de análise. Verifique também se se trata de uma observação ou de uma projeção. Estes elementos delimitam aquilo que se pode afirmar: a proporção de empresas que declara utilizar IA não mede, por si só, a frequência, a escala ou a integração.
Um aumento da utilização declarada permite afirmar que cresceu a proporção de empresas utilizadoras no âmbito da medição em causa. Não demonstra, por si só, um aumento da produtividade nem explica como a tecnologia é utilizada. A difusão da utilização e os seus efeitos são questões diferentes.
Para interpretar o alcance de um valor, é útil manter separadas as medidas que respondem a perguntas diferentes: utilização declarada pelas empresas, capital tecnológico, trajetórias estimadas e respostas dos clientes. Podem oferecer perspetivas complementares, mas cada uma tem a sua própria população e objeto de análise.
Em suma, uma taxa de adoção é útil quando permanece ligada à sua definição, população e período. A regra fundamental é não equiparar disponibilidade, experimentação, utilização habitual e integração. Assim, evita-se apresentar um cenário como resultado observado ou transformar uma medida de alcance numa afirmação sobre intensidade ou impacto.