Uma seleção publicada a 23 de junho, não uma previsão definitiva
O Fórum Económico Mundial e a editora científica Frontiers publicaram, a 23 de junho de 2026, o relatório Top 10 Emerging Technologies of 2026. A lista reúne tecnologias que, segundo os autores, poderão influenciar a indústria, as políticas públicas e a sociedade nos próximos anos. A data é importante: trata-se de um anúncio de junho, não de uma novidade de outubro.
A ideia subjacente à seleção é que vários avanços estão a passar das aplicações digitais para sistemas físicos: redes elétricas, processos industriais, medicina, produção alimentar e extração de materiais. Isso não significa que a inteligência artificial tenha deixado de ser importante; o relatório centra-se, antes, em tecnologias que também intervêm fora dos ecrãs.
Para os leitores, o valor prático está em usar o documento como um mapa dos temas a acompanhar, e não como uma tabela de vencedores. A inclusão de uma tecnologia não prova que esteja pronta para ser implementada, que seja rentável ou que venha a ter o maior impacto social.
As dez tecnologias incluídas no relatório
A lista publicada pela Frontiers e pelo Fórum abrange áreas diversas. Inclui sistemas que permitem a edifícios e veículos elétricos trocar energia com a rede, extração direta de lítio, tecnologias para destruir substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas (PFAS), vacinas personalizadas contra o cancro e administração de medicamentos através de exossomas.
A seleção inclui também arrefecimento radiativo diurno, sistemas de energia “tudo para a rede” (everything-to-grid), robótica e tecnologias associadas à produção alimentar e ao tratamento de materiais. O comunicado da Frontiers resume o âmbito com exemplos como redes elétricas, hospitais, fábricas, mineração e produção alimentar; nem todos os elementos são produtos de software e o seu grau de maturidade não é igual.
A página do anúncio identifica a lista com estes nomes: everything-to-grid energy, extração direta de lítio, destruição de PFAS, vacinas personalizadas contra o cancro, administração de medicamentos com exossomas e arrefecimento radiativo diurno, além de avanços na robótica e tecnologias ligadas à energia, alimentação e materiais. A lista deve ser lida no seu contexto: o comunicado disponível agrupa algumas descrições e não apresenta, por si só, uma comparação quantitativa das dez tecnologias.
O contributo do enfoque nos sistemas físicos
A deslocação do foco para infraestruturas e processos materiais alarga a conversa sobre tecnologia. No setor da energia, ligar veículos e edifícios à rede implica pensar em fluxos de eletricidade bidirecionais, armazenamento e gestão da procura, e não apenas em produção. Na saúde, os exemplos dizem respeito a tratamentos ou vias de administração de medicamentos, em vez de se limitarem a novas aplicações de diagnóstico.
O relatório apresenta a extração direta de lítio como alternativa aos métodos baseados em lagoas de evaporação e relaciona a destruição de PFAS com a descontaminação ambiental. São problemas concretos: obter materiais para baterias e tratar poluentes persistentes. O interesse tecnológico depende do desempenho em contexto, incluindo as condições locais, os custos e os efeitos ambientais do processo completo.
Este enquadramento é útil para equipas de investigação, responsáveis pela inovação e leitores que acompanham a transição energética ou a biomedicina. Permite fazer perguntas mais específicas do que “qual é a próxima tendência?”: de que infraestruturas precisa um sistema, que evidência clínica apoia uma intervenção ou que etapa da produção poderá mudar? O relatório não responde automaticamente a estas perguntas.
Emergente não significa pronto para o mercado
A Frontiers define tecnologias emergentes como avanços científicos ou técnicos que começam a passar da investigação para aplicações reais. Esta definição abrange fases muito distintas: uma tecnologia pode apresentar resultados experimentais promissores, ensaios em curso ou implementações limitadas e, ainda assim, estar longe de uma adoção generalizada.
Por isso, importa distinguir três planos: a existência do avanço, a evidência de que funciona e a possibilidade de o ampliar. A inclusão num relatório indica que os autores consideram o tema relevante; não substitui a análise de artigos científicos, avaliações regulatórias, ensaios clínicos ou dados de instalações em funcionamento.
Na prática, quem avalia uma tecnologia deve verificar o que foi demonstrado e em que condições, quem financia ou realiza os estudos, que alternativas são comparadas e que obstáculos persistem. No caso de uma vacina personalizada, por exemplo, a questão decisiva não é apenas se a abordagem existe, mas que resultados clínicos foram observados e em que população. O relatório não deve ser visto como uma validação da eficácia de uma intervenção específica.
Como usar a lista sem a confundir com uma classificação
O título “Top 10” pode sugerir uma classificação ordenada, mas o material de anúncio disponível não apresenta pontuações comparáveis nem uma metodologia suficiente para reconstruir uma classificação de impacto. É preferível encarar os dez elementos como uma seleção editorial de tecnologias em destaque, e não como posições do primeiro ao décimo lugar ou uma previsão segura de quais terão sucesso.
A página da Frontiers explica que o relatório é elaborado em conjunto com o Fórum Económico Mundial e procura identificar tecnologias emergentes com potencial transformador. O comunicado atribui à Frontiers experiência editorial e informação baseada em dados, mas as fontes disponíveis para este artigo não explicam completamente como são ponderados a maturidade, o potencial de escala, os benefícios ou os riscos. Essa falta de detalhe limita a comparação, sem retirar utilidade à lista para identificar áreas de investigação.
Esta diferença é importante para empresas e organismos públicos. Um sinal de interesse pode justificar acompanhamento, consultas com especialistas ou análise de projetos-piloto; não basta para decidir um investimento, alterar uma política ou substituir uma tecnologia existente. A seleção ajuda a definir prioridades de investigação e a procurar mais evidências, não a dispensar essa avaliação.
O que falta verificar antes de tomar decisões
O relatório não permite concluir que as dez tecnologias chegarão ao mercado dentro do mesmo prazo, nem que todas têm um nível de validação comparável. Também não demonstra, por si só, qual terá o maior retorno económico ou benefício ambiental. A principal ressalva diz respeito ao âmbito: trata-se de uma seleção destinada a orientar a atenção, não de uma avaliação técnica completa de cada solução.
Para acompanhar cada tema, vale a pena consultar as fontes específicas que sustentam as afirmações: estudos revistos por pares, registos de ensaios, documentação de entidades reguladoras e resultados publicados de projetos de demonstração. Esses materiais podem confirmar avanços, mas também revelar limitações que uma apresentação resumida não mostra, como necessidades energéticas, escalabilidade, custos ou efeitos secundários.
A conclusão útil é modesta e concreta: o relatório de 2026 põe no radar tecnologias ligadas à energia, saúde, clima, indústria e alimentação, muitas delas associadas a sistemas físicos. É um ponto de partida para investigar, desde que cada afirmação sobre maturidade, eficácia e viabilidade seja verificada separadamente.